CIDADÃOS INVISÍVEIS, CONSUMIDORES INVISÍVEIS


Há alguns dias, me deparei com a expressão “consumidores hipervulneráveis” em um texto jurídico. Ela é utilizada para definir aqueles indivíduos especialmente fragilizados pelas dinâmicas impostas pela sociedade de consumo. Em especial, idosos, crianças, analfabetos, semianalfabetos e portadores de necessidades especiais. É praticamente um termo jurídico, uma expressão que não se encontra fora de artigos técnicos desta área. Raramente, pra não dizer nunca, se encontra alguma referência a estes consumidores em artigos de marketing, branding, comunicação. No entanto, não faltam marcas propagando a sustentabilidade, a colaboração, o entendimento e, principalmente, saudando a diversidade.

Cidadãos invisíveis são também consumidores invisíveis. É o sujeito que fica horas sentado no café sem ser atendido pelo garçom, mesmo tendo dinheiro pra pagar a conta, ou a mulher que entra na loja do shopping e não é atendida pela vendedora por causa da sua cor, do seu cabelo ou da roupa que está usando. Me pergunto como este assunto ainda passa em branco não só pelas nossas consciências mas também pelas nossas análises de mercado e de comportamento.

A partir do trabalho da minha esposa, que atua na rede pública de saúde, tenho acompanhado o esforço que as escolas públicas e privadas tem feito para garantir o que chamamos de inclusão: a garantia de um ensino de qualidade a todos os cidadãos, inclusive àqueles que apresentam necessidades especiais de aprendizado. Professores são treinados, mobiliário e infraestrutura da escola são adaptados. Ainda não é a situação ideal, obviamente, mas não se pode negar que, cada vez mais, existe um movimento no sentido de acolher o que nos é estranho, diferente, desigual. Não estaria na hora das empresas, das marcas, das agências, dos implícitos líderes da sociedade de consumo, abrirem os olhos para isso?

As escolas foram forçadas a abrir os olhos por força da lei e algumas marcas já começaram a entender o momento e tiveram a sensibilidade de dar visibilidade a idosos e minorias na sua comunicação, o que é um passo bem importante vide a repercussão que tiveram a campanha d’O Boticário para o dia dos namorados ou a da American Apparel com a modelo Jacky O’Shaughnessy, de mais de 60 anos. Começam a aparecer pontuais anúncios e ações com modelos plus size e transexuais, o que já é um grande avanço. Mas não adianta colocar a transex no anúncio se dentro da loja a vendedora faz piada do rapaz que quer comprar uma blusa feminina.

Um próximo passo, que faz toda a diferença, é as marcas darem treinamento aos seus profissionais para atender a estes públicos tanto como pessoas como consumidores e, nos processos seletivos, tentar identificar o comportamento preconceituoso entre os candidatos, dando preferência aos que tem uma visão um pouco mais esclarecida. Se este movimento não for feito por solidariedade, que o seja ao menos pelo potencial de consumo destes “excluídos” e de uma parcela grande dos consumidores “não excluídos” que se solidarizam e exigem das marcas que consomem um mínimo de consciência e coerência.

Encerro com as palavras de Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

JOSÉ LUIS STRÖHER

Diretor de criação e produção gráfica, responde pelas áreas de comunicação no ponto de venda e branding da CDA.

Os artigos apresentados e assinados não refletem necessariamente a opinião da CDA Design, mas demonstram a diversidade de ideias que respeitosamente defendemos.

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