Pandemia enquanto produto

O Mercado é implacável. Desde o seu entendimento como ser vivo, sujeito mais às suas próprias regras do que a qualquer controle externo - contanto que em uma sociedade capitalista - constrói-se ao seu redor uma intrincada estrutura capaz de fagocitar tudo. Mesmo iniciativas que tentam negá-lo acabam muito rapidamente tornando-se mais um produto que circula pelas suas veias. Desse sistema digestivo depende o moto-perpétuo da economia. Com a Covid-19 não seria diferente.

Após o impacto inicial que nos fez ver como real uma daquelas situações apocalípticas das quais se fazem as maratonas de séries, logo as marcas se deram conta de que, se por um lado estavam diante de uma ameaça sem precedentes, que traria danos sensíveis aos dividendos e aos cabelos brancos dos acionistas, por outro a frase falaciosa de que o ideograma japonês para crise é o mesmo que para oportunidade estava ali uma vez mais, em frente aos departamentos de marketing, para alcançar a tão sonhada conexão genuína com o cliente.

Como que pelo girar de uma chave mágica, anunciantes de todos os nichos de mercado se apressaram em colocar de lado o universo de marca que vinham construindo havia muitas temporadas para abraçar um discurso de congraçamento entre os povos e de certeza da nossa capacidade para, enquanto sociedade, superar mais essa crise. Enquanto o próprio nome da ameaça - o novo Coronavírus - remete à linguagem do varejo, em que tudo é novidade, tem nova fórmula ou está sob nova direção, a publicidade nos convence, pelo sorriso fofo e irresistível de um bebê branco em um apartamento de classe média, de que juntos iremos superar. “Vai passar” tornou-se o mantra dessa propaganda que está aqui para confortar, e não para vender, deus-me-livre!, mais uma garrafa de refrigerante.

A pandemia é o ponto zero de uma nova consciência mundial em que, por trás de cada máscara serigrafada com um vistoso logotipo, existe um sorriso franco que nos irmana a todos. Daqui para frente, tudo vai ser diferente.

E assim que o shopping abre suas portas, é Black Friday. Salve-se quem puder.

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ROGER MONTEIRO

Gostaria de ter sido um sniper russo na Segunda Grande Guerra. Não tinha boa mira. Nasceu tarde demais. Contentou-se em ser artista gráfico, escritor e roteirista. Pilota uma motocicleta velha chamada Lady Luck.

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